segunda-feira, 15 de abril de 2013

Forma e conteúdo - Marina Silva

Forma e conteúdo

Marina Silva*

Na noite desta quarta, o Brasil assistiu, envergonhado, a um debate indigno do Legislativo e sua tradição democrática. Na forma e no conteúdo, houve o que o deputado Roberto Freire com acerto classificou como tentativa de golpe.
Todos já esperávamos que a reforma política fosse adiada outra vez, por falta de interesse dos que estão no poder e não querem mudar o sistema que lhes favorece. Mas há um fantasma que querem afastar: que novos partidos políticos (especialmente a Rede Sustentabilidade, que recolhe assinaturas para seu registro e ousa antecipar em seu estatuto avanços como o teto de contribuição financeira, limitação de dois mandatos para parlamentares etc.) venham renovar a política brasileira e mudar, na prática, regras que permanecem no papel.
A imprensa noticiou uma reunião no Planalto em que o governo instruiu seus operadores a votarem, em regime de urgência, um projeto que retira dos novos partidos o acesso ao tempo de TV e ao fundo partidário. Os direitos que foram garantidos a um partido aliado, recém-criado, seriam negados aos que não seguem a cartilha governista. Esse é o conteúdo do debate, baseado numa ética de ocasião expressa pela máxima "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei".
Mas a forma conseguiu ser pior. Basta ver as metáforas de mau gosto, com termos impróprios à publicação, usadas para debater as regras políticas da República. O regime de urgência não passou por falta de dez votos. A bancada governista diz que aprovará o projeto na próxima semana. Talvez o tempo sirva para que os deputados repensem a forma e o conteúdo do debate.
Os movimentos que defendem o patrimônio socioambiental exigem ética na política, protestam contra o loteamento dos cargos públicos, além de outras justas causas do povo brasileiro. Buscam ampliar a visão encurtada pelo poder a qualquer preço, democratizar os processos políticos monopolizados pelos partidos e criar novas estruturas para reconectar a política com a ideia de bem público. Justamente o contrário dos privilégios e deleites particulares sugeridos pelas metáforas vulgares. Esse é o novo conteúdo que trazem a um debate que precisa chegar ao século 21, que bate à nossa porta de forma dramática.
Renovar a linguagem é urgente. Em vez do ódio, expresso em ofensas, estimulado numa polarização em que o outro é visto como inimigo, deve ter espaço a fraternidade, capaz de construir consensos sobre o que é urgente para o futuro. É por isso que o novo ativismo, que está na base das novas propostas políticas, é bem-humorado, criativo, irreverente sem ser desrespeitoso.
Uma nova política tem como uma causa central a qualidade da educação. É o que parece faltar à velha política. 


*Marina Silva, ex-senadora, foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula e candidata ao Planalto em 2010. Escreve às sextas na versão da Folha

Publicado na Folha de São Paulo no dia 12 de abril - Link para o artigo original, clique aqui..

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Raposas cuidam do galinheiro em Congresso do Brasil, diz Financial Times Via Folha


 O jornal britânico Financial Times afirma que no Congresso brasileiro "a raposa está frequentemente cuidando do galinheiro".
Entre as supostas ''raposas'' citadas pelo diário, estão o deputado e pastor evangélico, Marcos Feliciano, que preside a Comissão de Direitos Humanos do Congresso e que fez uma série de comentários racistas e homofóbicos, o novo presidente da Comissão de Finanças e Tributação, João Magalhães, que está respondendo a processo no STF que o acusa de corrupção, os petistas José Genoino e João Paulo Cunha, condenados no processo do mensalão e que integram a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania e Blairo Maggi, atual líder da Comissão do Senado para o Meio Ambiente e um dos maiores produtores mundiais de soja.
Ailton de Freitas - 14.mar.13/Folhapress
Deputado Marco Feliciano (PSC-SP); protestos cobram sua saída de cargo em Comissão dos Direitos Humanos da Câmara
Segundo o jornal, o Congresso "é refém de diversos grupos de interesse que podem mudar suas alianças a qualquer momento".
De acordo com o Financial Times, as comissões brasileiras, ainda que sem dispor de um poder remotamente comparável ao das comissões do Congresso americano, ''são simbólicas dos poderosos grupos de interesse que atuam na política brasileira, comuns a todos os partidos".
É por esse motivo, acrescenta o jornal, "que os presidentes brasileiros normalmente tentam incluir o máximo possível de partidos em seus ministérios''.
O deputado Marco Feliciano (PSC-SP); protestos cobram sua saída de cargo em comissão Mas o diário comenta que ainda assim a presidente Dilma Rousseff não consegue assegurar "a lealdade do Congresso".
O diário lista como derrotas da presidente no Congresso, a tentativa de aprovar um "Código Florestal mais simpático ao meio ambiente'', que acabou sendo frustrada pelo bloco ruralista, e a ''batalha que ela perdeu'' pela distribuição igualitária de royalties do petróleo entre os Estados, com "os congressistas votando de acordo com suas interesses regionais".


Na Folha de 12 de abril de 2013.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Nem a Reforma Política, Dilma?


 Do Blog do Josias : Deputados lacram o esquife da ‘reforma política’


O que alguns deputados chamavam de reforma política era apenas uma proposta-defunta. Embora morta, falavam dela como se continuasse cheia de vida. Na noite passada, deu-se o previsível. Foram batidos no caixão da morta-viva os últimos pregos. O epitáfio? “Fui sem jamais ter sido.”
Sem consenso, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), decidira votar a pseudoreforma na base do vai ou racha. Rachou. Tentou-se salvar ao menos a unha do dedo mínimo do defunto –uma emenda que previa a unificação das eleições. Em vez de ir às urnas a cada dois anos, o eleitor elegeria todo mundo –do vereador ao presidente— de uma tacada, a cada quatro anos. Coisa para 2022.
Imaginou-se que, aprovada a unha, o resto viria com o tempo. Pois nem isso passou. O PPS decidiu obstruir a votação. Obteve a adesão instantânea de outras dez legendas. Lacrado o esquife, a reforma política sobrevive apenas como lenda. Tornou-se uma espécie de mula sem cabeça cavalgada por um jóquei cego (veja aqui do que você se livrou). Enquanto a mula vagueia, o Tribunal Superior Eleitoral “legisla”.


E qual a opção? Existe alguma chance de alguma forma de reforma política acontecer enquanto as raposas cuidarem do galinheiro?

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Atlético - MG x Arsenal: ficou barato pros "hermanos"



Fonte: G1 Minas
Ficou barato a pena ontem para os Argentinos.

Não vi nenhum comentário de solidariedade. Parece que o mais grave não foi notado: a pior agressão foi a uma mulher. Um chute no peito. Óbvio que o digníssimo jogador não sabia que "a mulher" atingida era só o comandante do policiamento da capital, Coronel Cláudia Romualdo. 
Uma pena não ter como provar, mas tenho dúvidas se o marginal que a chutou ontem, não o fez por estar de frente com uma mulher. Alguém viu algum chute nesse nível contra um dos soldados nos vídeos?
E foram julgados por umA juíza. Simples assim, mulheres superando preconceitos e se mostrando iguais, sem menosprezo algum aos homens.

O que me espanta é que não vi nenhum, NENHUM comentário na internet de parabenização pela ação da PM de Minas. Que merece sim ser parabenizada pela condução da situação. Alguém tem dúvida do que aconteceria se fosse em outro país da América do Sul? Me arrisco a duvidar inclusive se teríamos esse desfecho, se o ocorrido fosse em certos estados do país.
Se a PM tivesse respondido na proporção da selvageria dos Argentinos, agora as redes sociais estariam cheias de protestos. A favor dos direitos humanos, contra o governo do Estado, em nome da justiça. Mas, a lei foi cumprida. Para mim basta, mas não poderia deixar de fazer o comentário.

Pelo que conheço da PM, os argentinos se safaram de uma ontem.

Oito jogadores do Arsenal são autuados por lesão corporal em BH - Globo Esporte MG

terça-feira, 12 de março de 2013

Movimentos a esquerda.


O pós-PT

Merval Pereira, O Globo

Nos preparativos para a campanha presidencial do próximo ano, cujos primeiros passos já começam a ser dados, o PPS, uma pequena sigla partidária, destaca-se na tentativa de aglutinar as forças do que chama de “esquerda democrática” em torno de um projeto para derrotar “esse bloco que está aí no governo”.
O partido fará em abril uma reunião para a qual já foram convidados três dos prováveis candidatos a adversários da reeleição da presidente Dilma Rousseff — Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva — e mais o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador de São Paulo José Serra.
O PPS encontra-se numa posição peculiar dentro das negociações oposicionistas, podendo servir de abrigo à candidatura de Marina Silva caso ela não consiga montar a tempo sua REDE, como também é visto como um possível parceiro do governador de Pernambuco Eduardo Campos.
A possibilidade mais remota é a que sempre foi a opção quase automática do PPS, apoiar o candidato do PSDB, que deve ser o senador Aécio Neves. Isso porque a ligação política de Freire no PSDB é com José Serra, que estaria insatisfeito com os rumos que a direção nacional do PSDB estaria dando à definição do candidato em 2014.
Há ainda quem veja a possibilidade de Serra entrar para o PPS e vir a disputar novamente a Presidência da República, ou até mesmo aceitar formar como vice uma chapa com o governador pernambucano, mas essa seria uma opção bastante remota para quem sempre quis ser Presidente.
Esse movimento do PPS não é novo. O hoje deputado Roberto Freire pensa há muitos anos em unir os políticos ligados ao que chama de “esquerda democrática” para um projeto político comum. No final de 2003, depois da vitória de Lula à Presidência, Freire teve um encontro com Fernando Henrique em Providence, nos Estados Unidos, onde o ex-presidente lecionava na Universidade Brown.
Já naquele tempo ele citava o PSB como um parceiro provável, e via como possível uma aproximação com o PT que, acreditava, estava fazendo o seu “aggiornamento” (processo de atualização que o Partido Comunista Italiano fez em 1991, mudando de nome e abandonando o marxismo), depois de chegar ao governo e encarar realidades inescapáveis como a reforma da Previdência, que o governo Lula levou adiante nos seus primeiros momentos.
Antes, quando estava na oposição e esses assuntos afloravam na esquerda, “eram por eles desqualificados”, lembrava Freire na ocasião. Os dois relembraram na conversa que o PT classificava o PSDB de direita, mas assumira a agenda do governo Fernando Henrique “porque essa é a agenda de uma esquerda moderna”.
Freire lembrou na ocasião que “a esquerda no mundo fez esse debate”, e dava os exemplos de Felipe González e o PSOE na Espanha, do Partido Comunista Italiano e do próprio Partido Comunista Brasileiro, do qual é originário o PPS: “Nós do velho Partidão fizemos essa transição, com uma série de dificuldades, com traumas, com perdas, mas fizemos”.
Também o então deputado federal Fernando Gabeira, que se desligara do PT por discordar da política de meio ambiente do governo, constava dos planos do PPS para uma união de forças políticas. Já naquela ocasião Freire estava convencido de que a esquerda democrática não se representa totalmente nos partidos, e dava exemplos de dentro do PMDB, como o então governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, que hoje está apoiando o projeto de Eduardo Campos.
A ideia de “reforçar as convergências” já estava clara para ele, que, no entanto, acreditava que o que chegara ao poder era “um novo PT”.
Hoje, dez anos depois, está convencido de que o PT nunca esteve disposto a interagir com as demais forças democráticas da esquerda, mas apenas manter-se no poder, para isso fazendo alianças com forças políticas fisiológicas.
A eleição de 2014 está se desenhando como uma possibilidade de união de diversos segmentos partidários para definir uma era pós-PT, e essa é a principal motivação que, por enquanto, une os diversos candidatos que se contrapõem à reeleição de Dilma.

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Encontro do PPS reúne Eduardo, Aécio e Marina 

Josias de Souza 

Os três prováveis rivais de Dilma Rousseff na sucessão de 2014 se encontrarão numa conferência política do oposicionista PPS, em Brasília. Durará três dias. Convidados, Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva toparam participar da abertura, em 11 de abril. Fernando Henrique Cardoso e José Serra também irão.
O evento resume o atual estágio da política nacional. Não há candidaturas formalizadas. Mas todos se movem como candidatos. O PPS é um partido pequeno. Porém, em fase de montagem prematura de palanques eletrônicos, nenhum dos contendores dá-se ao luxo de dispensar segundos de propaganda.
Em disputas passadas, o tempo de tevê do PPS era cedido quase que automaticamente ao PSDB. Hoje, o tucano Aécio enfrenta a concorrência de Eduardo, do PSB. Marina tenta lançar a sua Rede. Mas tem no PPS um ‘Plano B’ –para o caso de não conseguir reunir até setembro as 500 mil rubricas necessárias à fundação de um novo partido.
Presidente do PPS, o deputado Roberto Freire (SP) diz que a legenda deseja perscrutar na conferência o pensamento da “esquerda democrática”. Para ele, os quase-futuros-candidatos à Presidência se encaixam no rótulo. “São lideranças que terão influência no processo de 2014 e representam esse espectro da esquerda.”
Mas, afinal, quem vai dispor do apoio do PPS? “O partido não tem ainda nenhum consenso”, afirma Freire. Não pende para Eduardo Campos? “Hoje, realmente há certa preferência”, ele admite. “Talvez porque o Eduardo simbolize a possibilidade de a gente superar esse bloco que está aí no governo.”
A decisão do PPS sobre 2014 não será tomada agora. A conferência de abril é preparatória para o 18o Congresso da legenda, a ser realizado no final do ano. Até lá, confirma Freire, o PPS amadurecerá a ideia de fundir-se a uma outra legenda, provavelmente o nanico PMN.
Com a fusão, sustenta Freire, surgirá um novo partido, apto a abrigar políticos de outras legendas sem o risco da perda de mandatos. “Temos que conversar internamente, mas entendendo que, seja qual for o nosso caminho, essa fusão pode ser importante.”
Como assim? Freire pensa alto: “Só para dar um exemplo: suponha que Marina não consiga viabilizar a Rede e que o Eduardo, por alguma razão, não se consolide. A fusão abriria uma perspectiva para a Marina e todo o bloco que ela está articulando. Não podemos descartar uma coisa assim.”

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sobre Marina no Roda Viva

Achei no Facebook,  a opinião de Roberto Bitencourt da Silva, no perfil "Ocupa a Rede Globo". Infelizmente não consegui achar o perfil ou o site onde ele pode ter posta originalmente a sua posição. Em tempo, agradeço ao companheiro Fábio Mesquita, que inicialmente compartilhou o texto comigo.
Fato é que gostei da visão que ele dá do fenômeno Marina Silva e acho que é uma boa opção para começarmos a discussão sobre quem é realemnte e o que pretende Marina Silva.
Então, abaixo, reproduzo o texto:

"Nunca prestei tanta atenção no discurso da sra. Marina Silva quanto nesta entrevista concedida ao Roda Viva, evidentemente, por conta da possibilidade de surgimento de mais um partido político no País - no caso, sob a sua liderança. Entendi porque nunca me chamou a atenção... É muito articulada, tem seguramente predicados retóricos que guardam apelo para certos segmentos da sociedade brasileira. No entanto, em que pese a forma eventualmente simpática e contemporânea, o conteúdo político é paupérrimo e conservador!

Assisti a sua entrevista e nada vejo que se pareça com um programa político. Reformas das "práticas e dos comportamentos políticos"? A ideia em si é boa, mas, qual é o sentido do que a dona Marina chama de "novo protagonismo político do cidadão em face dos monopólios dos partidos"? Parece que apenas a atender, eventualmente, aos impulsos narcísicos das pessoas por serem ouvidas pelas lideranças políticas. Isso pq a candidata para 2014 não oferece uma proposta sequer de sociedade, uma orientação efetiva de mudança na sociedade, que dê sustentação a tal "protagonismo cidadão"...

Ainda segundo dona Marina, as categorias "direita" e "esquerda" estão "superadas". Portanto, ela se apresenta como a "porta-voz" da "mudernidade" complexa dos novos tempos, que não tenderia mais a enquadrar tal polarização... Ô dona Marina, dá uma lida no "Direita e esquerda" do cientista político Norberto Bobbio pra ver se a sra. entende o sentido da antiga - e bastante atual - polarização! Como se sabe, uma divisão entre os q são a favor ou contrários à igualdade social e econômica.

De acordo com a liderança da Rede ("Rede do Pesca Otário", rss, conforme a irônica designação dada pelo mestre Aluizio Alves Filho) a agenda política do Brasil deve adentrar o século XXI. Para a dona Marina ainda nos encontramos, anacronicamente, operando com uma agenda dos séculos XIX e XX. Bom, mas o País já realizou a reforma agrária? Já suprimiu o latifúndio? Já oferece educação e saúde de qualidade para todos/as? Já introduziu uma reforma tributária progressiva? Já está taxando as grandes fortunas? Já exerce plenamente a sua soberania nacional? Já possui uma mídia plural? Já reduziu drasticamente as desigualdades sociais e econômicas? Enfim, o nosso País já realizou as reformas elementares para a construção de uma sociedade que se possa, minimamente, ser chamada de democrática? Como penso que não fizemos nada disso, a agenda política só pode mesmo, em grande medida, ser a dos séculos XIX e XX, em virtude mesmo do nosso renitente atraso em resolver problemas históricos que se arrastam até hoje. Colocar pra baixo do tapete estas questões é, no minimo, iludir as pessoas."