O pós-PT
Merval Pereira, O Globo
Nos
preparativos para a campanha presidencial do próximo ano, cujos
primeiros passos já começam a ser dados, o PPS, uma pequena sigla
partidária, destaca-se na tentativa de aglutinar as forças do que chama
de “esquerda democrática” em torno de um projeto para derrotar “esse
bloco que está aí no governo”.
O partido fará em abril uma reunião
para a qual já foram convidados três dos prováveis candidatos a
adversários da reeleição da presidente Dilma Rousseff — Eduardo Campos,
Aécio Neves e Marina Silva — e mais o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso e o ex-governador de São Paulo José Serra.
O PPS
encontra-se numa posição peculiar dentro das negociações oposicionistas,
podendo servir de abrigo à candidatura de Marina Silva caso ela não
consiga montar a tempo sua REDE, como também é visto como um possível
parceiro do governador de Pernambuco Eduardo Campos.
A
possibilidade mais remota é a que sempre foi a opção quase automática do
PPS, apoiar o candidato do PSDB, que deve ser o senador Aécio Neves.
Isso porque a ligação política de Freire no PSDB é com José Serra, que
estaria insatisfeito com os rumos que a direção nacional do PSDB estaria
dando à definição do candidato em 2014.
Há ainda quem veja a
possibilidade de Serra entrar para o PPS e vir a disputar novamente a
Presidência da República, ou até mesmo aceitar formar como vice uma
chapa com o governador pernambucano, mas essa seria uma opção bastante
remota para quem sempre quis ser Presidente.
Esse movimento do PPS
não é novo. O hoje deputado Roberto Freire pensa há muitos anos em unir
os políticos ligados ao que chama de “esquerda democrática” para um
projeto político comum. No final de 2003, depois da vitória de Lula à
Presidência, Freire teve um encontro com Fernando Henrique em
Providence, nos Estados Unidos, onde o ex-presidente lecionava na
Universidade Brown.
Já naquele tempo ele citava o PSB como um
parceiro provável, e via como possível uma aproximação com o PT que,
acreditava, estava fazendo o seu “aggiornamento” (processo de
atualização que o Partido Comunista Italiano fez em 1991, mudando de
nome e abandonando o marxismo), depois de chegar ao governo e encarar
realidades inescapáveis como a reforma da Previdência, que o governo
Lula levou adiante nos seus primeiros momentos.
Antes, quando
estava na oposição e esses assuntos afloravam na esquerda, “eram por
eles desqualificados”, lembrava Freire na ocasião. Os dois relembraram
na conversa que o PT classificava o PSDB de direita, mas assumira a
agenda do governo Fernando Henrique “porque essa é a agenda de uma
esquerda moderna”.
Freire lembrou na ocasião que “a esquerda no
mundo fez esse debate”, e dava os exemplos de Felipe González e o PSOE
na Espanha, do Partido Comunista Italiano e do próprio Partido Comunista
Brasileiro, do qual é originário o PPS: “Nós do velho Partidão fizemos
essa transição, com uma série de dificuldades, com traumas, com perdas,
mas fizemos”.
Também o então deputado federal Fernando Gabeira,
que se desligara do PT por discordar da política de meio ambiente do
governo, constava dos planos do PPS para uma união de forças políticas.
Já naquela ocasião Freire estava convencido de que a esquerda
democrática não se representa totalmente nos partidos, e dava exemplos
de dentro do PMDB, como o então governador de Pernambuco, Jarbas
Vasconcelos, que hoje está apoiando o projeto de Eduardo Campos.
A
ideia de “reforçar as convergências” já estava clara para ele, que, no
entanto, acreditava que o que chegara ao poder era “um novo PT”.
Hoje,
dez anos depois, está convencido de que o PT nunca esteve disposto a
interagir com as demais forças democráticas da esquerda, mas apenas
manter-se no poder, para isso fazendo alianças com forças políticas
fisiológicas.
A eleição de 2014 está se desenhando como uma
possibilidade de união de diversos segmentos partidários para definir
uma era pós-PT, e essa é a principal motivação que, por enquanto, une os
diversos candidatos que se contrapõem à reeleição de Dilma.
Josias de Souza
Os três prováveis rivais de Dilma Rousseff na sucessão de 2014 se
encontrarão numa conferência política do oposicionista PPS, em Brasília.
Durará três dias. Convidados, Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina
Silva toparam participar da abertura, em 11 de abril. Fernando Henrique
Cardoso e José Serra também irão.
O evento resume o atual estágio da política nacional. Não há
candidaturas formalizadas. Mas todos se movem como candidatos. O PPS é
um partido pequeno. Porém, em fase de montagem prematura de palanques
eletrônicos, nenhum dos contendores dá-se ao luxo de dispensar segundos
de propaganda.
Em disputas passadas, o tempo de tevê do PPS era cedido quase que
automaticamente ao PSDB. Hoje, o tucano Aécio enfrenta a concorrência de
Eduardo, do PSB. Marina tenta lançar a sua Rede. Mas tem no PPS um
‘Plano B’ –para o caso de não conseguir reunir até setembro as 500 mil
rubricas necessárias à fundação de um novo partido.
Presidente do PPS, o deputado Roberto Freire (SP) diz que a legenda
deseja perscrutar na conferência o pensamento da “esquerda democrática”.
Para ele, os
quase-futuros-candidatos à Presidência se
encaixam no rótulo. “São lideranças que terão influência no processo de
2014 e representam esse espectro da esquerda.”
Mas, afinal, quem vai dispor do apoio do PPS? “O partido não tem
ainda nenhum consenso”, afirma Freire. Não pende para Eduardo Campos?
“Hoje, realmente há certa preferência”, ele admite. “Talvez porque o
Eduardo simbolize a possibilidade de a gente superar esse bloco que está
aí no governo.”
A decisão do PPS sobre 2014 não será tomada agora. A conferência de abril é preparatória para o 18
o
Congresso da legenda, a ser realizado no final do ano. Até lá, confirma
Freire, o PPS amadurecerá a ideia de fundir-se a uma outra legenda,
provavelmente o nanico PMN.
Com a fusão, sustenta Freire, surgirá um novo partido, apto a abrigar
políticos de outras legendas sem o risco da perda de mandatos. “Temos
que conversar internamente, mas entendendo que, seja qual for o nosso
caminho, essa fusão pode ser importante.”
Como assim? Freire pensa alto: “Só para dar um exemplo: suponha que
Marina não consiga viabilizar a Rede e que o Eduardo, por alguma razão,
não se consolide. A fusão abriria uma perspectiva para a Marina e todo o
bloco que ela está articulando. Não podemos descartar uma coisa assim.”